Por Fábio Andrade
No debate político, a escolha das palavras raramente é ingênua. Quando o Deputado
Federal Coronel Ulysses declarou que a governadora Mailza Cameli juntamente com
Jéssica Sales, “apesar de serem mulheres”, são competentes, ele não cometeu um mero
lapso gramatical. Ele expôs uma estrutura do discurso político que ainda trata a
competência feminina como uma exceção à regra. Dessa forma, sua frase sintetiza a
essência do machismo institucionalizado: aquele que se disfarça de elogio para reforçar,
nas entrelinhas, a premissa de que a incompetência seria a regra biológica ou social do
gênero feminino.
A sua construção sintática revela uma hierarquia implícita. Visto que, quando o Deputado
passa a utilizar a conjunção concessiva “apesar de”, ele busca estabelecer um abismo
entre o ser mulher e o ser capaz. Dessa maneira, a competência deixa de ser um atributo
individual para se tornar uma exceção quase milagrosa, uma anomalia em relação ao
padrão esperado pelo locutor.
Para compreender a profundidade desse discurso, a psicanálise de Sigmund Freud oferece
chaves conceituais reveladoras sobre como a linguagem opera muito além da vontade
consciente do indivíduo. Nesse mister, a fala do parlamentar não é um ponto fora da curva;
é, acima de tudo, a manifestação verbal de uma estrutura mental e social que teima em se
esconder.
Em A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Freud demonstrou que deslizes verbais
e lapsos não são acidentes banais, mas a irrupção direta do inconsciente sobre a censura
consciente. Trata-se do clássico ato falho e do retorno do recalcado. Nesta perspectiva,
o deputado, ao tentar soar benevolente ou conciliador em sua fala, falhou em conter o que
realmente guarda no fundo de sua psique: uma crença arraigada de que a política e a
capacidade técnica pertencem, por essência, ao domínio masculino. O inconsciente
simplesmente traiu a intenção do discurso oficial.
Essa dinâmica se consolida no mecanismo da negação, detalhado por Freud em seu
ensaio de 1925, no qual o sujeito frequentemente expressa pensamentos reprimidos sob a
forma de uma concessão defensiva. Por essa via, ao formular frases como “são
competentes, apesar de serem mulheres”, o candidato a reeleição traz à tona o
julgamento primário de que a mulher é naturalmente incapaz, tentando neutralizá-lo logo
em seguida. O “apesar” funciona aqui como uma cortina de fumaça que falha
miseravelmente em esconder o desprezo velado.
No fundo dessa postura, opera a angústia de castração e a defesa de um narcisismo
frágil, o que, na teoria freudiana, a dominação patriarcal e o rebaixamento do feminino
derivam da necessidade imperiosa de proteger a integridade do ego narcísico masculino.
Por outro lado, a ascensão de mulheres a cargos de alta liderança técnica e política
desestabiliza o monopólio histórico do poder do homem. Tratá-las como “exceções à
regra” é o mecanismo de defesa perfeito para conter a ameaça de ver essa hegemonia
relativizada.
“O ego não é senhor em sua própria casa.”
Por fim, a fala do parlamentar ultrapassa a esfera individual e expõe as engrenagens de
uma violência simbólica estrutural. Trata-se da típica condescendência paternalista que
insiste em conceder às mulheres o direito à competência apenas sob a licença especial e
o aval do olhar masculino. Desmascarar essa articulação verbal é um dever urgente do
eleitorado. O “apesar de” não é uma gafe tolerável no discurso, mas o sintoma
escancarado de um patriarcado que reluta em admitir a capacidade plena sem antes impor
suas velhas ressalvas.
Por Fábio Andrade
História, Filosofia, Ciências Sociais com Habilitação em Ciência Política;
Pós-graduado em Gestão da Segurança Pública e Direitos Humanos;
Mestre em Relações Internacional; Graduando em Psicologia.
Artigo







