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Caipora, Mapinguari e Cobra Grande resistem na tradição do Acre

Neste sábado (22), é celebrado o Dia do Folclore Brasileiro. Em Rio Branco e no interior do Acre, lendas amazônicas como a Caipora, o Mapinguari, o Boto cor de rosa e a Cobra Grande do Rio Acre seguem presentes na memória de famílias que descendem de seringueiros, povos originários e ribeirinhos.

A historiadora Celiny Maria Alves da Silva, graduada em licenciatura em História pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestranda em História da Amazônia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), explicou em entrevista ao ac24horas, que essas narrativas vêm da tradição oral e estão ligadas à história familiar de grande parte da população regional.

“Essas narrativas nunca foram simplesmente histórias inventadas, mas sim regras de convivência com a mata, ensinamentos passados de boca em boca nos varadouros e barracões sobre o respeito e os limites no trato com a natureza”, afirma.

Segundo a historiadora, a Caipora, também chamada de caboclinho da mata, é descrita como guardiã da floresta e senhora da caça. Nos seringais, o caçador aprendia que a mata só permitia retirar o que a família precisava para o sustento e que o fumo deixado nos troncos era sinal de respeito e pedido de licença.

“Quem entrava para caçar por ganância ou maltratar os bichos acabava sendo castigado com o desespero de perder o rumo nas estradas de seringa”, relata Celiny. Para ela, a lenda representa uma forma de sabedoria tradicional que já orientava a conservação da floresta antes da existência do conceito formal de preservação ambiental.

O Mapinguari é apontado pela historiadora como a lenda viva da mata fechada, presente nos relatos de quem cortava seringa e abria picada na selva. “Ele personifica o mistério da floresta densa e o temor respeitoso que se devia manter com os trechos intocados da mata”, diz.

O Boto aparece como uma das narrativas mais conhecidas da região, presente nos beiradões e nas festas ribeirinhas. Celiny explica que, além do encanto associado às águas, o mito cumpria papel social nas comunidades. “O mito servia tanto para explicar acontecimentos do cotidiano quanto para alertar sobre os perigos reais de se aproximar dos rios à noite”, pontua.

Já a Cobra Grande do Rio Acre é uma variação amazônica do mito da serpente encantada e permanece viva no imaginário de Rio Branco, ligada à história da criatura adormecida nas profundezas da Gameleira e sob as fundações da Igreja Nossa Senhora da Conceição. “A tradição oral dizia que a cidade precisava manter o respeito para não despertar a serpente, misturando o temor místico com o alerta prático aos moradores sobre a força das correntezas, os remansos perigosos e as constantes quedas de barranco no rio”, descreve a historiadora.

Para Celiny, falar de folclore na Amazônia é reconhecer a memória viva dos seringueiros, dos povos originários e dos ribeirinhos. “A floresta e os rios sempre ditaram suas próprias regras de respeito e convivência”, concluiu.

Da redação ac24horas

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