Há 24 anos, Acre testemunhava a segunda maior tragédia aérea de sua história

Avião da Rico Linhas Aéreas. Foto: Reprodução

Há 24 anos, o Acre foi abalado pelo segundo maior acidente aéreo de sua história. O avião da Rico Linhas Aéreas, que fazia o voo 4823 de Cruzeiro do Sul a Rio Branco, caiu a poucos quilômetros da cabeceira da pista do Aeroporto Internacional Plácido de Castro, na capital acreana. O acidente deixou 23 mortos e 8 feridos.

A aeronave era uma Embraer EMB-120 Brasília e transportava 31 pessoas. Dentre os feridos, seis ficaram em estado grave e dois com lesões leves. O impacto da queda deixou destroços espalhados em uma área extensa na mata fechada, sob forte chuva.

Entre as vítimas estavam o deputado federal Ildefonço Cordeiro (PSDB) e sua esposa, Arlete, velados na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), além do coordenador regional da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Ailton Rodrigues de Oliveira.

Naquele mesmo dia, dois acidentes com dois com aviões Fokker-100 da TAM aconteceram pela manhã. Os acidentes registraram feridos e os aviões foram obrigados, em decorrência de falhas de equipamentos, a fazer pousos de emergência no interior de São Paulo, um, em um pasto, e o outro, no Aeroporto de Viracopos, em Campinas.

Embarque, voo e queda

Naquela época, o voo RLE 4823 saía de Cruzeiro do Sul às 16h10, pousava às 16h40 em Tarauacá e de lá decolava novamente às 16h55 para pousar em Rio Branco às 17h45, onde fazia o pernoite para retorno à base da empresa. De acordo com relatos da época, antes do embarque houve um tumulto porque diversos passageiros foram solicitados a cederem seus lugares a outras pessoas.

A aeronave decolou pontualmente de Cruzeiro do Sul. Em Tarauacá, teve mais confusão por conta dos lugares no voo.

Tragédia da Ricco ocorreu há 24 anos/Foto: Reprodução

Próximo à capital acreana, o Brasília da Rico Linhas Aéreas colidiu contra o solo a quatro quilômetros da cabeceira 06 do aeroporto de Rio Branco, entre o intervalo de 17h57 e 18h03. A aeronave bateu na copa de uma árvore, atingiu um mourão e vai parar num descampado às margens de um ramal. Os três tripulantes e 17 passageiros morrem na hora. Outros três morreram posteriormente.

De acordo com o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), após a queda o avião só parou cerca de 650 metros depois do ponto de impacto inicial, já sem as asas e motores.

O segundo maior acidente aéreo do Acre

Este foi o segundo pior desastre aéreo da história do estado. O mais grave ocorreu em 28 de setembro de 1971, em Sena Madureira, quando um avião DC-3 da empresa Cruzeiro do Sul apresentou pane no motor, colidiu com árvores e explodiu na comunidade Boca do Caeté, a poucos minutos do centro da cidade. As 33 pessoas a bordo morreram carbonizadas.

“Estou viva pela misericórdia de Deus”

Entre os oito sobreviventes do voo 4823 estava a médica pneumologista Célia Rocha, que na época ocupava o cargo de subsecretária de Saúde do Acre. Ela havia passado uma semana em Cruzeiro do Sul em missão oficial, acompanhada de técnicos da secretaria e de representantes do Ministério da Saúde.

Em entrevista exclusiva ao ContilNet em 2025, Célia falou sobre os instantes que mudaram sua vida:

“Eu tive fratura total da mandíbula, todas as costelas quebradas, pulmões perfurados, o baço roto, fraturas na coluna, joelho e pés esmigalhados. Parecia que tinham me colocado num liquidificador em alta rotação. Mas, mesmo inconsciente, eu consegui conduzir meu próprio resgate, pedindo para não ser transportada deitada, porque senão eu ia me afogar no meu próprio sangue.”

Pneumologista Célia Rocha/Foto: Reprodução

A médica sobreviveu após passar três meses e vinte dias internada na UTI em São Paulo e se submeter a 44 cirurgias. Hoje, mais de duas décadas depois, ela encara sua sobrevivência como um ato de fé e propósito:

“Eu estou viva não é por beleza, estou viva pela misericórdia de Deus. Sei que tenho uma missão a cumprir, e enquanto Ele me permitir, vou cumprir.”

Passados 24 anos, as investigações ainda não apontaram com clareza um motivo definitivo para a queda. O relatório do Cenipa levantou hipóteses como o mau tempo, fadiga da tripulação e até a possibilidade de falta de combustível.

Célia Rocha, no entanto, tem uma convicção própria:

“Dizem que foi uma tesoura de vento, mas pra mim ninguém tira isso da cabeça: o avião não tinha combustível. Se tivesse, teria explodido no impacto, e não explodiu. Além disso, nada funcionava: não caiu máscara de oxigênio, as luzes não acenderam, a caixa-preta não registrou nada. A companhia sabia dos problemas e não fez nada. Pessoas morreram de forma desnecessária por negligência da empresa.”

Ao ContilNet, a médica explicou que enquanto era atendida no Acre, a notícia do acidente já circulava por João Pessoa, sua cidade natal. A Federação Norte Nordeste da Unimed mobilizou a Univida Air, com uma equipe de UTI que embarcou em um jato Hook XP 800 para transportar Célia até São Paulo, no Hospital 9 de Julho.

​Célia diz que a médica chefe da UTI do Hospital 9 de Julho, e sua equipe, já a aguardava. “O meu aspecto geral era irreconhecível, virei um objeto não identificado”, disse.

“Como sempre digo eu estou vida pela misericórdia de Deus. Hoje se eu estivesse escapado com as devidas deficientes eu seria tetraplégica, cega e sem a perna esquerda”, completou.

A cerimônia fúnebre dos 23 passageiros do voo 4823 uniu o estado por completo. Em Rio Branco, a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) e o Colégio Barão do Rio Branco (CERB) foram usados como capela para velar os corpos. Depois de embalsamados, os corpos foram transladados para Cruzeiro do Sul.

Lista das vítimas fatais

  • Deputado federal Ildefonço Cordeiro
  • Arlete Cordeiro, esposa do deputado
  • Ailton Rodrigues de Oliveira, coordenador da Funasa
  • Paulo Jorge Costa de Souza, médico neurocirurgião
  • Rosângela de Souza, técnica da Secretaria de Saúde
  • João Batista de Oliveira, funcionário público
  • Raimundo Nonato Mendes, servidor da Sectas
  • Maria Antônia da Silva
  • Raimundo Tavares da Costa
  • Cláudia Pereira Lima
  • José Cláudio da Silva
  • Francisco das Chagas Melo
  • Ana Lúcia Silva
  • Raimunda Ferreira de Souza
  • Marcos Paulo de Lima
  • Antonio Carlos da Costa
  • Luís Fernando Nogueira
  • Joana D’Arc Almeida
  • Carlos Roberto Freitas
  • Fábio Alves de Souza
  • Rita de Cássia Oliveira
  • Pedro Gomes da Silva
  • José Augusto Pereira

    FontE: Contilnet

Compartilhe

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Print
LinkedIn

Siga nossas Redes Sociais