O advogado e empresário Willer Tomaz de Souza, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), voltou ao noticiário após o Jornal Nacional revelar, na quarta-feira (21), imagens de uma sala escondida em um hangar utilizado por empresas ligadas a ele, no Aeroporto Internacional de Brasília.
O compartimento foi localizado pela Polícia Federal (PF) durante diligências da Operação Sem Desconto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas às fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A descoberta se soma a uma série de revelações publicadas pelo ICL Notícias, pela revista piauí e por outros veículos sobre o patrimônio do advogado, suas relações com políticos, empresas de apostas e movimentações financeiras investigadas pela PF.
Tomaz nega participação em desvios previdenciários e irregularidades empresariais.
Quem é Willer Tomaz?
Willer Tomaz de Souza é um advogado e empresário de Brasília com atuação nos setores imobiliário, de aviação, advocacia e apostas.
Sua trajetória empresarial começou no ramo da informática, antes de se formar em Direito e ampliar os negócios.
Em investigação publicada em 30 de setembro, os jornalistas Paulo Motoryn e Alice Maciel, do ICL Notícias, em parceria com a newsletter Noites Húngaras, revelaram que Tomaz declarou à Receita Federal patrimônio pessoal de R$ 171,28 milhões em 2025.
Os documentos também mostram que ele recebeu R$ 217,8 milhões em lucros e dividendos entre 2024 e 2025.
A declaração de bens inclui mansões em Brasília, carros de luxo, investimentos no Brasil e no exterior e R$ 1 milhão em espécie.
Segundo a reportagem, apenas em 2025 o advogado declarou R$ 115,18 milhões em lucros e dividendos, o equivalente a aproximadamente R$ 9,6 milhões por mês.
Tomaz afirma que os rendimentos foram devidamente declarados à Receita Federal.
O que a Polícia Federal encontrou no hangar?
Durante uma operação realizada em agosto, agentes da Polícia Federal encontraram uma sala escondida atrás de uma estrutura de madeira em um hangar utilizado por empresas ligadas a Willer Tomaz, no Aeroporto de Brasília.
O ambiente tinha uma porta metálica reforçada e continha máquinas de contar dinheiro, malas vazias e prateleiras.
As imagens foram divulgadas pelo Jornal Nacional na quarta-feira (21).
O local foi inspecionado durante diligências relacionadas à Operação Sem Desconto. Não havia dinheiro em espécie no compartimento quando os policiais realizaram a vistoria.
A defesa de Tomaz afirmou que se tratava de uma sala-cofre destinada a atividades legítimas de transporte de valores e negou que o ambiente tivesse finalidade criminosa.
Quais são as ligações de Willer Tomaz com o INSS?
Willer Tomaz foi alvo de mandados de busca e apreensão durante a Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Documentos da Polícia Federal divulgados pelo ICL Notícias apontam o advogado como possível centro de apoio financeiro e patrimonial a pessoas investigadas.
Em um dos relatórios, os investigadores utilizam a expressão “hub financeiro, patrimonial e logístico” para descrever a função suspeita atribuída a estruturas ligadas a Tomaz.
A PF identificou movimentações financeiras consideradas atípicas, negócios imobiliários e relações empresariais que passaram a ser examinadas no âmbito da investigação.
Uma das conexões envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA).
Segundo os investigadores, empresas ligadas a Tomaz realizaram pagamentos superiores a R$ 11 milhões à esposa do parlamentar, Samya Rocha.
Outra operação examinada pela PF envolve a aquisição de uma mansão no Lago Sul, em Brasília, por R$ 6 milhões, por uma empresa ligada ao advogado. O imóvel era utilizado por Weverton.
Os investigadores procuram esclarecer quem efetivamente se beneficiava dessas operações e a origem dos recursos.
Tomaz contesta a associação de seus negócios às fraudes previdenciárias.
Quem é a mulher que apareceu na direção de 14 empresas?
Uma das revelações do ICL Notícias envolve Lídia Maria Figueiredo Mazelli, que trabalhou no escritório de Willer Tomaz e posteriormente passou a ocupar cargos de direção em pelo menos 14 empresas ligadas ao advogado.
Os negócios incluem empresas de aviação, imóveis, investimentos, comunicação e processamento de pagamentos para casas de apostas.
Em setembro, os jornalistas localizaram Lídia no Distrito Federal. Durante a abordagem, ela inicialmente negou conhecer Tomaz e afirmou trabalhar como empregada doméstica.
“Acho que teve alguma confusão aí. Eu nem trabalho lá”, disse na ocasião.
Depois da publicação, Lídia mudou sua versão e afirmou que havia respondido daquela forma porque ficou assustada com a abordagem.
Ela declarou ser formada em Administração e ter exercido efetivamente funções de gestão nas empresas.
A Polícia Federal passou a examinar a hipótese de que Lídia tenha atuado como interposta pessoa na administração dos negócios. Uma fonte policial ouvida pelo ICL afirmou que os indícios apontavam para essa possibilidade.
A defesa de Tomaz e Lídia rejeita a suspeita e afirma que ela exercia atividades administrativas legítimas.
O que a revista piauí descobriu sobre as empresas de Willer Tomaz?
Uma investigação publicada pela revista piauí em 20 de outubro revelou conexões entre empresas de apostas ligadas a Willer Tomaz, estruturas empresariais registradas em Portugal e uma conta bancária à qual Flávio Bolsonaro teria tido acesso.
Segundo os jornalistas Allan de Abreu, Breno Pires, Felícia Cabrita e Mário Gouveia, Tomaz criou, em 2023, a Cathedral Holdings, sediada no Funchal, na Ilha da Madeira.
A empresa passou a controlar a Rede Loto, responsável pela casa de apostas Best Bet, que obteve autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para operar no mercado de apostas.
Naquele mesmo período, o advogado criou a Alcazar Holdings, também registrada na Ilha da Madeira.
A piauí identificou que Cathedral e Alcazar compartilhavam endereço, administrador e vínculos societários.
Os jornalistas foram ao endereço das empresas, em Funchal, e não encontraram sinais de funcionamento efetivo das operações no local.
Documentos contábeis obtidos pela revista também mostraram movimentações entre as duas estruturas empresariais.
Um auditor fiscal português consultado pela reportagem afirmou que os registros indicavam a possibilidade de financiamento entre as companhias.
A análise contábil levantou questionamentos sobre a relação financeira entre Cathedral e Alcazar, mas não constitui, isoladamente, prova de operação ilegal.
Qual é a ligação de Flávio Bolsonaro com essas empresas?
Segundo documentos bancários obtidos pela Polícia Federal e analisados pela piauí, Flávio Bolsonaro aparecia como usuário com privilégios de administração em uma conta da Alcazar Holdings no Santander.
A revista informou que a condição de usuário permitia acesso a informações bancárias e a determinadas funcionalidades operacionais.
Em maio de 2025, uma funcionária de Tomaz encaminhou ao banco um pedido para excluir Flávio do cadastro de usuários da conta.
Na mesma época, o senador e o advogado estavam em Portugal e realizaram uma viagem com familiares para a França, em uma aeronave contratada por empresa ligada à Cathedral.
A PF pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de investigação para apurar a suspeita de que Flávio pudesse ter participação indireta na Best Bet.
Um relatório policial citado pela piauí também levantou a hipótese de que contas ligadas a Tomaz fossem utilizadas para concentrar e redistribuir recursos de terceiros.
Flávio Bolsonaro nega ter compartilhado conta bancária com o advogado e afirma que a relação entre os dois é de amizade.
Tomaz também nega que o senador tenha sido sócio da Best Bet ou mantido acesso à conta da Alcazar.
O que mais liga Willer Tomaz a Flávio Bolsonaro?
A relação entre os dois aparece em diferentes reportagens sobre viagens, imóveis e negócios.
Durante a CPI da Covid, em 2021, Flávio Bolsonaro se referiu publicamente a Tomaz como seu amigo.
O ICL Notícias também identificou imóveis ligados ao advogado que foram utilizados pelo senador, incluindo uma residência em Angra dos Reis e um apartamento em São Paulo.
Segundo a revista piauí, a Polícia Federal encontrou registros de viagens internacionais e movimentações bancárias que passaram a ser examinadas pelos investigadores.
Em reportagem sobre a disputa pela mansão de Angra dos Reis, o ICL ouviu Antônio Marcos da Silva, que negociou o imóvel com o grupo ligado ao jogador Richarlison.
Marcos afirmou que, durante uma visita à propriedade, Flávio apresentou Willer como alguém com quem mantinha negócios.
“Temos vários negócios juntos”, teria dito o senador, segundo o relato de Marcos ao ICL.
A declaração é contestada por Tomaz, que nega sociedade com Flávio na aquisição do imóvel. O relato de Marcos não comprova, por si só, a existência de sociedade entre os dois.
Por que Willer Tomaz foi preso em 2017?
Willer Tomaz foi preso preventivamente em maio de 2017, durante a Operação Patmos, deflagrada a partir das delações de executivos da JBS.
Na época, os investigadores apuravam suspeitas de obtenção irregular de informações sigilosas sobre procedimentos envolvendo interesses empresariais do grupo.
O caso também envolveu o procurador da República Ângelo Goulart Villela.
Em agosto daquele ano, o Supremo Tribunal Federal revogou a prisão preventiva do advogado.
Segundo sua defesa, a denúncia contra ele nesse episódio foi posteriormente rejeitada de forma definitiva.
O que Willer Tomaz tem a ver com Richarlison?
O nome de Willer Tomaz voltou a ganhar repercussão nacional por causa de uma disputa judicial com o atacante Richarlison, ex-jogador da seleção brasileira e atualmente no Tottenham.
O atleta afirma ter investido aproximadamente R$ 10 milhões na aquisição de direitos sobre uma propriedade de luxo na Ilha Comprida, em Angra dos Reis.
Segundo Richarlison, Flávio Bolsonaro demonstrou interesse em comprar o imóvel, mas a proposta foi recusada.
O jogador acusa Tomaz e o senador de terem participado de irregularidades que provocaram a perda dos direitos de ocupação.
“Eu não quis vender a ilha para ele”, afirmou Richarlison ao comentar a disputa.
A empresa WT Administração de Imóveis e Bens, ligada a Tomaz, obteve decisões judiciais favoráveis sobre os direitos de ocupação.
O advogado sustenta que a aquisição foi legal e contesta os documentos apresentados pelo atacante. Flávio nega envolvimento irregular na negociação.
Na quarta-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também se manifestou sobre o caso e afirmou ter solicitado uma investigação à Polícia Federal.
“Em apenas uma semana, esse Willer Tomaz, possivelmente com a ajuda do Flávio, conseguiu tomar a ilha do Richarlison”, declarou Lula.
O presidente questionou as circunstâncias da transferência dos direitos sobre o imóvel. A declaração não comprova a ocorrência de crime nem confirma, isoladamente, a abertura formal de um inquérito policial.
Ex-jogador da seleção brasileira afirma ter investido R$ 10 milhões em uma mansão em Angra dos Reis e acusa Flávio Bolsonaro e um advogado de irregularidades. Lula pediu investigação à Polícia Federal, enquanto Richarlison apresentou documentos para sustentar sua versão. Os citados contestam as acusações
Notícias ao Minuto | 03:15 – 22/10/2026
Com informações do Notícias ao Minuto







