FERNANDO CAZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A economia brasileira pode entrar em recessão em 2027, impulsionada pelo rápido endurecimento das condições financeiras e pelo enfraquecimento dos motores que sustentaram a atividade recente.
Projeções do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), de consultorias e bancos indicam uma expansão do PIB (Produto Interno Bruto) ao redor de 1% em 2027, com uma recessão não descartada.
Exercício preliminar do Ibre-FGV alerta que, mantendo-se a piora atual nas condições financeiras, com juros e dólar em alta, as atividades cíclicas (comércio, indústria de transformação e serviços), que acompanham o ritmo econômico, recuariam 0,5% em 2027.
Nesse cenário, mesmo mantendo projeção positiva de 1% nos setores chamados exógenos (agropecuária e indústria extrativa), aqueles dependentes de variáveis climáticas e de mercado, o PIB ficaria estagnado no próximo ano.
Isso ampliaria drasticamente a vulnerabilidade do país e a possibilidade de uma recessão. Outras consultorias e bancos já expõem explicitamente a chance de uma contração no ano que vem.
A Fecomercio-SP fala abertamente em recessão em 2027, citando o “esgotamento do modelo de crescimento baseado no endividamento”. O Itaú, maior banco do país, rebaixou para 2027 a estimativa de crescimento do PIB de 1,2% para 0,5%. O Safra afirma que “o mercado estima um risco maior de recessão em 2027”.
Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados e colunista da Folha, uma recessão fica “crescentemente” possível. “Seria um mini-2015 [quando o PIB caiu 3,8%], sem Lava Jato, mas com o mesmo risco de um ministro da Fazenda isolado do governo negando a realidade fiscal”, diz.
A perda de fôlego da economia reflete uma mudança estrutural na dinâmica do crescimento. Nos últimos anos (2023-2025), a agropecuária e a indústria extrativa responderam por cerca de um terço do incremento do valor adicionado da economia, atuando como um suporte exógeno decisivo.
Para 2027, contudo, a expectativa de baixo crescimento ou estagnação no campo e a desaceleração de preços e produção petrolífera reduzirão consideravelmente a contribuição desses setores exógenos, deixando o PIB mais dependente das atividades cíclicas.
O problema é que o ambiente para atividades cíclicas como comércio, indústria de transformação e serviços tornou-se desfavorável.
O Indicador de Condições Financeiras (ICF) do Ibre-FGV atingiu patamares restritivos, influenciado pela alta dos juros internacionais e pelo avanço das taxas reais (acima da inflação) de juros domésticas, que oscilaram entre 9,5% e 9,7% ao ano, jogando o impulso do crédito para o terreno negativo.
A indefinição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre como atacar a atual crise fiscal do país, raiz dos juros elevados, segundo economistas ortodoxos, complicou ainda mais o cenário após o segundo turno eleitoral. Os juros de mercado subiram, o dólar disparou e a Bolsa despencou.
Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre e responsável pela elaboração dos cenários macroeconômicos do instituto, haveria, de qualquer maneira, uma espécie de “purgatório” econômico mesmo se Lula atacasse o desequilíbrio das contas públicas.
Em sua opinião, o excesso de gastos do governo nos últimos anos e o endividamento privado poderiam ser digeridos com o passar do tempo sem uma recessão -desde que um ajuste fiscal crível reduzisse os juros que oneram famílias e empresas.
Sem essa sinalização ou medidas efetivas, no entanto, segundo Matos, ganha força o risco de uma crise de crédito, impulsionada pelo expressivo endividamento das famílias.
Estudos do Banco Central e a literatura econômica internacional mostram que ciclos de expansão apoiados em forte tomada de crédito costumam ser seguidos por fases de contração acentuadas -uma espécie de ressaca econômica.
No Brasil, a concentração de dívidas em modalidades de alto custo e prazos curtos penaliza principalmente os 20% mais pobres, que enfrentam extrema dificuldade para se livrar de seus débitos.
Segundo a Serasa, o país chegou a 84,2 milhões de inadimplentes em setembro, o maior número da série. Isso equivale a 51,1% da população adulta, um recorde. Cada inadimplente deve, em média, R$ 7.094, e o valor médio de cada dívida é de R$ 1.693. Como parâmetro, a renda mensal atual é de R$ 3.790.
O estrangulamento do orçamento dessas famílias por dívidas força um corte severo no consumo de bens e serviços, aprofundando o ciclo descendente da atividade e retardando o processo de recuperação do país.
É o que o ex-diretor do Banco Central José Júlio Senna chama de “desequilíbrio patrimonial”. Ele empurra famílias e empresas endividadas -há recorde de firmas sob recuperação judicial- a cortar gastos para se ajustar, derrubando a atividade econômica.
“Pode ser cedo para falar em recessão, mas isso não está descartado. Embora a economia opere acima de seu potencial e o desemprego esteja baixo, tudo perde gás rapidamente”, diz Senna.
Embora a taxa de desemprego esteja em patamares mínimos históricos (projetada em 5,6% para 2026), o indicador deve mudar de direção. Com a perda de dinamismo das atividades cíclicas, projeta-se uma elevação da taxa de desocupação para quase 7% em 2027.
Acompanhando a deterioração das vagas formais, a Renda Nacional Disponível Bruta Restrita das famílias, que sustenta o consumo, sofreu desaceleração acentuada.
Após avançar a um ritmo real de 7,3% ao ano entre 2021 e 2025, o crescimento mensal da renda desidratou para 0,1% no acumulado de janeiro a agosto de 2026.
A estimativa representa um reajuste de 7,4% e poderá afetar milhões de trabalhadores, além de benefícios sociais e previdenciários vinculados ao piso nacional.
Guilherme Bernardo | 09:36 – 08/11/2026
Com informações do Notícias ao Minuto







