Acre tem mais de mil geoglifos descobertos, mas apenas 50% estão catalogados

Sítio Arqueológico Severino Calazans também recebe visitas de muitos turistas e pesquisadores/Foto: Uêslei Araújo/Sema

O Acre abriga um dos maiores mistérios da arqueologia. Escondidos nas florestas acreanas ou revelados nas áreas desmatadas, os geoglifos estão mostrando outra versão da história da ocupação humana na Amazônia. Os geoglifos são estruturas gigantescas em formas geométricas perfeitas escavadas no chão.

Mais de mil desenhos milenares, compostos por quadrados, círculos, retângulos e octógonos, já foram identificados no Acre, mas apenas pouco mais de 500 foram registrados, e um deles foi tombado como patrimônio cultural do Brasil, de forma representativa: o Sítio Arqueológico Jacó Sá, em 2018.

Ao ContilNet, a superintendente estadual substituta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Antonia Barbosa, explicou sobre os sítios arqueológicos deste tipo, sua simbologia e como visitá-los.

“Os geoglifos são sítios arqueológicos monumentais, foram escavados no solo e formam figuras geométricas. Eles possuem uma arquitetura e uma engenharia sofisticada. Foram construídos pelos povos pré-colombianos, mais ou menos, no primeiro século da Era Cristã. Aqui no Acre nós temos, predominantemente, os quadrados, retângulos, círculos e octógonos e, às vezes, em algumas localidades, nós temos as estruturas associadas, que é composto por várias estruturas”, disse.

A arqueóloga e superintendente substituta destaca que os sítios arqueológicos que ainda não foram catalogados estão na lista de “suspeitos”, mas que precisam cumprir requisitos do Iphan para serem registrados.

“Nós temos aproximadamente mil sítios arqueológicos descobertos, porém, desses mil sítios arqueológicos, mais ou menos uns 530 a 550 é que estão identificados e registrados. Esses que não estão catalogados, não estão na nossa base de dados, porque precisam de visita in loco para verificar se apresenta todos os critérios estabelecidos em normativas para reconhecimento e identificação desse patrimônio. A partir do momento que a gente cadastra no sistema, aquele sítio começa a ser protegido pela lei e pela Constituição”, disse.

De acordo com Antônia, esse tipo de sítio arqueológico começa no Peru e na Bolívia, na área de fronteira. “No Acre, ele começa em Assis Brasil, e vem subindo para Epitaciolândia, Brasiléia, Acrelândia, Plácido de Castro, Capixaba, Xapuri, Senador Guiomard, Rio Branco, Bujari, Sena Madureira, um pedacinho de Manoel Urbano e Porto Acre. Depois vai para a faixa do Amazonas, Rondônia e Mato Grosso. No Acre, você vai encontrar esse tipo de sítio arqueológico no leste do Estado”, explicou.

A arqueóloga explicou, ainda, que os geoglifos possuem medidas precisas, muretas internas e externas, valetas, além de terem vários caminhos.

“Quando as estruturas são medidas, embora que os geoglifos foram construídos no primeiro século da Era Cristã, eles foram utilizados e depois foram abandonados. E agora, recentemente, foi dada outra atividade para aquela localidade, por exemplo, a pecuária. Após o abandono, árvores cresceram em cima da estrutura, houve também um assoreamento e um aterramento das valetas. Quando os pesquisadores, os arqueólogos, escavam esse sítio, embora que muitos na superfície tenham as mesmas medidas, elas são confirmadas em uma pesquisa arqueológica, porque quando se escava e se chega a valeta original, se percebe que todos os lados têm as mesmas medidas, os mesmos ângulos, é um quadrado perfeito e muitos estão direcionados para o solstício de inverno e solstício de verão, alinhados, porque os povos indígenas antigos utilizavam a lua, o sol e as estrelas como orientação”, disse.

“Tem toda essa forma construtiva que vem antes de Pitágoras, que se vê os ângulos perfeitos que os quadrados têm e o alinhamento. É incrível como eles detinham conhecimento e nós não temos conhecimento do conhecimento que eles tinham”, destacou.

De acordo com a arqueóloga, a principal linha de estudo que o Iphan segue tem embasamento científico. “O principal é que foram construídos pelos povos originários. Os antepassados dos antepassados dos nossos povos. Isso é mérito deles e ninguém tira. Os geoglifos tinham diferentes funcionalidades. As pesquisas apontam que poderiam ser lugares de festejos, encontros e cerimoniais. Se a gente tivesse dados científicos que comprovem tudo direitinho, seria uma coisa, mas a gente não tem. Nós temos quase mil sítios arqueológicos, foram pesquisados 20 sítios arqueológicos, então a quantitativa é muito pequena ainda”, afirma.

Geoglifos podem se tornar Patrimônio Mundial da Humanidade

Antonia Barbosa explica que o Iphan tem trabalhado para que os geoglifos sejam transformados em patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

De acordo com Antonia, os geoglifos estão na lista indicativa da Unesco. “Eles pediram para que pudéssemos atualizar essa lista indicativa. Na ocasião, nós colocamos um quantitativo muito grande de sítios para poder fazer o tombamento pelo patrimônio da humanidade. A proposta que foi feita foi que analisássemos todas as situações e criássemos parques arqueológicos, como a Serra da Capivara, no Piauí”, explicou.

Próximo a Rio Branco, capital do estado, algumas dessas construções, com grande potencial turístico, podem ser encontradas e visitadas. De acordo com a superintendente do Iphan, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo, Tecnologia e Inovação (SDTI) tem uma rota que compreende os sítios arqueológicos Baixa Verde, Severino Calazans e Jacó Sá.

Para fazer a visita nesse trecho, é necessário solicitar para a Prefeitura de Rio Branco, pela SDTI.

Geoglifo Baixa Verde II: o sítio fica a 28 km saindo de Rio Branco, em direção a Boca do Acre, na margem direita da BR-317. A estrutura é composta por um quadrado e tem 120m de lado, com as trincheiras medindo em torno de 14,7m de largura e 1,5m de profundidade.

Geoglifo Severino Calazans: cortado pela BR-317, situa-se 4,5 km após o Baixa Verde II, situado à esquerda, em direção a Boca do Acre. É um quadrado com 230m de lado e trincheira com 12m de largura.

Geoglifo Jacó Sá: um dos mais famosos e reconhecidos mundialmente. Para chegar, basta seguir direto, 8 km ao norte do Sítio Severino Calazans, também na margem esquerda da BR-317. A estrutura é composta por dois quadrados, um deles contendo um círculo.

Geoglifo Tequinho: também famoso internacionalmente, está localizado 11 km à frente do Jacó Sá, próximo à entrada da Vila Pia, à direita, no Ramal do Pelé por 2,5 km. São dois grandes quadrados, com trincheiras triplas.

Potencial turístico

Antônia diz que os sítios arqueológicos no Acre são muito procurados, principalmente por turistas estrangeiros. “Eles vêm visitar esse nosso patrimônio, reconhecem, veem como uma estrutura monumental e ficam se questionando como podem ter construído uma estrutura dessa em meio à floresta”, ressalta.

“Nós temos o grande desafio de fazer com que as pessoas vejam que só estudando o passado é que a gente pode compreender o presente e pensar no futuro”, propõe.

A importância dos geoglifos na história dos povos amazônicos foi tema da série “Ancient Apocalypse”, da plataforma de streaming Netflix.

Fonte: ContilNet

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