Airbnb inicia remoção de 1.600 anúncios de hospedagem em habitação popular na cidade de SP

Airbnb inicia remoção de 1.600 anúncios de hospedagem em habitação popular na cidade de SP

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Airbnb iniciou nesta segunda-feira (3) a remoção de 1.625 anúncios de habitações populares irregularmente disponibilizadas por anfitriões para hospedagem e locação de curta temporada. A medida ocorreu após o envio pela Prefeitura de São Paulo da listagem de imóveis construídos com incentivos municipais para HIS (Habitação de Interesse Social) e HMP (Habitação de Mercado Popular), voltados a famílias com renda de até seis e até dez salários mínimos, respectivamente.

De acordo com a plataforma, a comunicação aos anfitriões e a remoção abrangem 773 acomodações com anúncios ativos, além de outras 852 inativas (desativadas pelo próprio responsável). “Esse será um processo contínuo com base em informações oficiais fornecidas”, indicou em comunicado à Folha de S.Paulo.

A empresa apontou que hóspedes impactados serão avisados. Também receberão suporte para a reserva de nova acomodação.

Já anfitriões deverão procurar a prefeitura caso considerem que tiveram anúncios indevidamente removidos. Isso porque “revisões ou alterações dessa classificação dependem das informações constantes nos registros oficiais do Município”, justificou na nota.

O Airbnb afirmou que a medida é um primeiro passo. Também declarou que “seguirá colaborando com a Prefeitura de São Paulo no cumprimento das regras da política habitacional do município”.

“A plataforma reforça que possui regras claras que exigem que anfitriões cumpram todas as leis, normas e regulamentos aplicáveis aos imóveis anunciados. Ao publicar um anúncio no Airbnb, o anfitrião aceita e se compromete formalmente com essas obrigações”, completou.

Os responsáveis por acomodações na plataforma começaram a ser avisados sobre remoções em maio. À época, a Folha de S.Paulo identificou quatro apartamentos na zona norte em que os próprios anfitriões admitiam que se tratava de habitação popular. Do total, três anúncios foram desativados pelos responsáveis após a notificação, enquanto um teve a descrição alterada, deixando de mencionar o tipo de moradia.

O “desvirtuamento” de milhares de apartamentos para locação de curta temporada e moradia para maior renda foi alvo de investigação do Ministério Público por mais de três anos e de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara Municipal.

Parte dos anúncios foi identificada em outras plataformas virtuais, como a Booking – que respondeu à Folha de S.Paulo em julho que tem compromisso de “operar em estrita conformidade com a legislação local” e que mantém diálogo com o poder público.

Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) respondeu ter solicitado a retirada de anúncios às principais plataformas de locação por curta temporada. “O objetivo da prefeitura é garantir que os imóveis subsidiados pelo município cumpram estritamente o seu papel social e a legislação”, declarou.

O Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) estimou que incentivos municipais destinados às empresas do mercado imobiliário para a construção desse tipo de apartamento representariam R$ 1,2 bilhão em outorga onerosa, principal contrapartida financeira cobrada pela prefeitura para a verticalização na cidade. O montante foi atualizado para R$ 5 bilhões pela CPI, em relatório entregue em maio, referente ao período de 2014 a 2025.

A gestão Nunes tem refutado a alegação de que a política não atenderia à população em déficit habitacional, diz fiscalizar com base em parâmetros legais e defende que o benefício resultou no aval à construção de mais de 400 mil unidades entre 2019 e 2024 (ante 48 mil produzidas com verba municipal no período). Até julho, ao menos 887 unidades foram autuadas, com valor total de R$ 44,1 milhões em multas.

A estratégia de incentivos foi criada com o Plano Diretor de 2014 e a Lei de Zoneamento de 2016, com ampliações e flexibilizações ao longo de anos, como o fim da exigência de convênio com a prefeitura, em 2018.

Estudo do Cebrap mapeou ao menos 16 benefícios, incluindo aval para prédios mais altos e com maior área construída do que em empreendimentos comuns. Hoje, esses apartamentos são 75% da produção paulistana, de acordo com dados do setor imobiliário.

Em maio, a Promotoria ingressou com uma segunda ação civil pública. No pedido, é requerida a adoção de medidas pela prefeitura em curto prazo, como a apresentação de listagem de todas as habitações e a criação de plataforma virtual para envio e armazenamento de documentos e evidências, entre outras.

CLASSIFICAÇÃO DA HABITAÇÃO POPULAR EM SÃO PAULO

– HIS-1 (renda mensal familiar de até 3 salários mínimos): R$ 4.863 (ou até R$ 810,50 per capita);
– HIS-2 (renda mensal familiar de 3 a 6 salários mínimos): R$ 9.726 (ou até R$ 1.621 per capita);
– HMP (renda mensal familiar de 6 a 10 salários mínimos): R$ 16.210 (ou até R$ 2.431,50 per capita)

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