Anúncios suspeitos de brinquedos usados por milhares de dólares mobilizam redes sociais

Anúncios suspeitos de brinquedos usados por milhares de dólares mobilizam redes sociais

Uma onda de publicações em redes sociais acendeu o alerta de usuários e autoridades policiais para supostos anúncios fraudulentos em plataformas internacionais de compra e venda online. As postagens denunciam ofertas de ursos de pelúcia e bonecas antigas sob valores inflacionados, que chegam a milhares de dólares ou euros, acompanhadas de descrições técnicas que, segundo ativistas e influenciadores, assemelham-se a fichas cadastrais de crianças.

A repercussão do caso se intensificou após a delegada de Polícia Civil e influenciadora digital Luana Davico publicar um alerta em seus perfis. Na postagem, ela chamou a atenção para a incompatibilidade entre o estado dos produtos e os valores exigidos pelos vendedores.

“Isso é muito sério. Anúncios bizarros e com preços absurdos estão surgindo em sites de e-commerce. Pelúcias antigas, brinquedos velhos… por milhares de euros e dólares, com descrições que parecem fichas de pessoas (crianças)”, afirmou a delegada.

Davico também mencionou relatos de usuários que apontam a derrubada de vídeos e denúncias originais pelas diretrizes de moderação das redes sociais de vídeos curtos.

Análise das capturas de tela compartilhadas nas denúncias revela padrões que fogem à praxe do comércio de itens de segunda mão. Em uma das ofertas indexadas, uma boneca usada traz na descrição as variáveis “93 cm”, “olhos azuis”, a letra “F” (indicativo de sexo feminino) e a observação de que o anunciante detém o objeto “há três anos e meio”.

Em um segundo anúncio sob o título de “Boys Toy” (brinquedo de menino), o texto de apresentação estipula “120 cm”, “37 kg” e acrescenta que o produto “terá cinco anos em novembro”. Os parâmetros de peso, dimensão e idade cronológica são compatíveis com o desenvolvimento infantil, e não com a ficha técnica de artefatos de plástico ou pelúcia.

A interface gráfica dos registros analisados aponta para o ecossistema da plataforma Vinted — um marketplace europeu especializado na transação de vestuário e utilitários usados —, embora citações correlatas também mencionem a norte-americana Amazon. Relatos de brasileiros residentes no exterior indicam que a prática foi detectada em outros serviços.

“Moro em Portugal e aqui tem Vinted e até no OLX. Eles colocam bonecos de algumas cores, indicando idade e sexo das crianças. Quando fazemos as denúncias, bloqueiam nossas redes sociais”, relatou uma usuária em resposta à mobilização.

O tema também foi encampado pela atriz e criadora de conteúdo Fefe Schneider, que publicou um compilado de dados sobre o comportamento dessas contas. Schneider traçou um paralelo com teorias que circularam na internet em anos anteriores, quando uma varejista de móveis dos Estados Unidos foi acusada de adotar táticas semelhantes em catálogos de armários com nomes próprios de pessoas.

A postagem da atriz recebeu endosso público de figuras do meio artístico e digital, como os comediantes Victor Sarro e Gabriel Rocha, as atrizes Fabiana Karla e Andréa Sorvetão, além da apresentadora Tata Estaniecki.

Até o momento, órgãos oficiais de proteção à infância e divisões de crimes cibernéticos não emitiram notas confirmando a abertura de inquéritos ou se os anúncios de fato mascaram redes de contrabando humano e exploração infantil, ou se tratam-se de estratégias de engajamento e golpes financeiros virtuais.

A reportagem entrou em contato com as assessorias globais de comunicação da Vinted e da Amazon para questionar sobre a existência de filtros automáticos de segurança para barrar anomalias de preços e se os perfis denunciados infringem os termos de serviço das companhias. Não houve retorno até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para posicionamento das marcas.

Fonte: ContilNet

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