Após irmã ser morta pelo marido, mulher consegue adoção do sobrinho no Acre

Imagens autorizadas: Andreia e Kalel

A vitória judicial chegou com lágrimas. Nesta sexta-feira (17), Andreia Paulichen, 34 anos, concedeu relato exclusivo ao ac24horas sobre a conquista que encerrou seis anos de luta: a adoção definitiva do sobrinho Kalel da Costa Paulichen, filho de sua irmã Adriana da Costa Paulichen Marinho, assassinada pelo companheiro Hitalo Marinho Gouveia em 2021.

“Ele é tudo o que resta da minha irmã”, disse Andreia, com a voz embargada, ao falar de Kalel, hoje com 5 anos e 4 meses. A criança é autista não verbal, nível 2 de suporte, e frequenta a escola com apoio de um cuidador, além de realizar terapias com psicólogo e fonoaudiólogo. Andreia detinha a guarda unilateral do sobrinho desde os seis meses de vida dele, quando perdeu a irmã para o feminicídio.

A decisão judicial destituiu o pai biológico do poder familiar e determinou a alteração do nome da criança, que passou a se chamar Kalel da Costa Paulichen, com a supressão do sobrenome paterno. O processo enfrentou resistência do genitor, que contestou a ação por meio de advogado particular, e ficou suspenso por cerca de um ano à espera do trânsito em julgado da condenação criminal. Em março de 2026, esgotados todos os recursos, Hitalo Marinho foi condenado a 22 anos, 10 meses e 29 dias de reclusão em regime inicial fechado.

Laudos apontam que Andreia exerce a maternidade com dedicação desde que Kalel tinha seis meses de idade, em um ambiente estável e acolhedor. A Justiça reconheceu que a criança, já está integrada à família da tia, e que a adoção apenas formalizou um vínculo afetivo construído ao longo de anos. Diante da gravidade do crime cometido pelo pai e do melhor interesse da criança, a sentença consolidou a proteção dos direitos do menino.​​​​​​​​​​​​​​​​

Imagens autorizadas: Kalel

O caminho até a adoção começou quando Andreia buscou suporte psicológico e jurídico após atravessar um luto profundo, ela chegou a raspar o cabelo durante o período mais difícil da depressão. O promotor de Justiça a encaminhou ao CAV (Centro de Apoio às Vítimas), vinculado ao Ministério Público do Acre, onde soube que uma legislação vigente permitia a adoção do sobrinho por ser parente da criança. “O CAV esteve sempre à minha disposição durante todo esse processo”, afirmou ela.

A situação ganhou urgência quando Andreia foi contatada por um perfil falso nas redes sociais, que transmitiu a mensagem de que o pai de Kalel, mesmo preso, teria afirmado que a mãe do menino “merecia ter morrido” e que tinha a intenção de levar o filho para fora do estado assim que fosse possível. O relato foi determinante para acelerar os trâmites judiciais.

O processo de adoção ficou paralisado por cerca de um ano porque o genitor ainda tinha recursos pendentes na esfera criminal. Hitalo Marinho contestava a condenação e tentava provar sua inocência, o que impediu o avanço do trâmite enquanto a ação penal não chegasse ao fim. Com a sentença criminal, em março deste ano, e a confirmação da pena de 22 anos, 10 meses e 29 dias de reclusão em regime fechado, o caminho para a adoção ficou livre, e o juiz proferiu a decisão definitiva em favor de Andreia.​​​​​​​​​​​​​​​​

Imagens autorizadas: Andreia e seus 3 filhos, incluindo Kalel

Ao encerrar o relato, Andreia expressou o desejo de que sua trajetória sirva de incentivo a outros familiares de crianças órfãs em situações semelhantes. “Agora, finalmente, vou conseguir sair do luto”. Ela conta que fez um voto de fé, de que caso conseguisse adotar seu filho, Kalel, ela poderia finalmente superar, momento que agora desfruta e chama de “meu milagre”.

Relembre o caso

O feminicídio que transformou a vida de Kalel e de Andreia ocorreu na tarde de uma sexta-feira (9) de julho de 2021, dentro da loja de roupas de Adriana da Costa Paulichen Marinho, localizada na rua Senador Kairala, no bairro Estação Experimental, em Rio Branco. Adriana tinha 27 anos e foi morta a facadas e por estrangulamento pelo companheiro Hitalo Marinho Gouveia na presença do filho, que tinha apenas seis meses de idade.

Hitalo confessou o crime à Polícia Militar do Acre e foi preso em seguida. O Ministério Público do Acre, por meio do promotor Efrain Mendoza Filho, denunciou o réu por feminicídio com motivação de torpeza, apontando que o crime foi cometido porque a vítima não aceitava as traições do companheiro. A 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Rio Branco acatou a denúncia, e o julgamento pelo Júri Popular foi realizado na 2ª Câmara Criminal em 2023.

Fonte: ac24horas

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