Uma situação de emergência vivida dentro da própria família levou o analista de sistemas Enarde Fernandes a desenvolver uma tecnologia voltada para reduzir o tempo gasto na solicitação de atendimentos de urgência e facilitar o envio de informações de pacientes ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
A ideia surgiu em 2025, após a mãe de Enarde sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Durante o pedido de socorro, ele precisou responder a uma série de perguntas sobre o estado de saúde dela, medicamentos utilizados, histórico de doenças e localização da família, que naquele momento estava em uma chácara na zona rural, a cerca de 14 quilômetros de Rio Branco.
Segundo o profissional, a tensão provocada pela situação dificultou até mesmo lembrar informações básicas sobre a própria mãe.
“Foi o pior momento ali que tive na minha vida, porque pensei que fosse perder minha mãe naquele dia. E assim, quando a gente ligou para o atendimento do SAMU e lá atender minha mãe, foram diversas perguntas. Entre elas, quais medicamentos ela tomava, se estava acima do peso, se tinha diabetes, se tinha pressão alta ou pressão baixa, qual medicamento tomar para pressão alta, qual medicamento tomar para diabetes. Naquele momento de pânico, aquele momento de estresse, você não consegue lembrar desse tipo de coisa”, disse.
Enarde Fernandes desenvolveu uma tecnologia voltada para reduzir o tempo gasto na solicitação de atendimentos de urgência/Foto: cedida
A experiência serviu como ponto de partida para pensar em uma ferramenta capaz de automatizar parte dessas informações. Enarde, que atua na área de sistemas, inscreveu a proposta em iniciativas de incentivo à inovação, incluindo um projeto do Sebrae voltado para soluções tecnológicas na área da saúde e o Programa Centelha.
“Como eu sou profissional da sou analista dos sistemas então tive o gatilho de participar de um projeto que estava tendo no Sebrae, o Health Tech, que é um projeto voltado para as startups, projeto de startup voltado para soluções, inovadoras na área da saúde. Então coloquei a ideia, esse gatilho que tive, coloquei essa ideia nesse edital que se chama Help Tech do Sebrae. Em seguida, veio mais um edital, inclusive do próprio Sebrae também, que é o Centelha. Então, participei desse edital também, passei no edital”, completou.
Como funciona a tecnologia
A proposta reúne recursos como inteligência artificial e geolocalização. A ideia é que os dados médicos previamente cadastrados sejam encaminhados à central de atendimento no momento em que o usuário solicitar socorro.
O sistema funcionaria de maneira semelhante a uma rede de perfis familiares. O usuário poderia cadastrar pessoas próximas, como pais, filhos, irmãos e cônjuges, incluindo informações sobre doenças preexistentes, medicamentos utilizados e outros dados relevantes para situações de emergência.
Assim, ao pedir atendimento para uma pessoa já cadastrada, parte das informações necessárias durante a triagem poderia chegar automaticamente à central, junto com a localização em tempo real de quem solicita o socorro.
“O principal objetivo é que quando eu, Enarde, solicitar um atendimento para minha mãe, que já vai estar cadastrada e atrelada ao meu usuário, porque vai funcionar estilo uma rede social de saúde, onde eu vou cadastrar pessoas, minha mãe, minha família, no caso, meu pai, meu irmão, meus filhos, minha esposa. Isso pra quê? Porque geralmente quando você solicita um atendimento do SAMU, é pra alguém que você conhece. Então, para esse caso, estou solicitando atendimento da minha mãe e vai todos os dados dela direto para a central”, disse.
Para Enarde, a ferramenta poderia diminuir o tempo gasto com perguntas durante o primeiro contato e também reduzir a pressão sobre familiares e outras pessoas que solicitam ajuda em momentos de emergência.
IA e comando de voz
O projeto também prevê o uso de inteligência artificial para auxiliar na triagem inicial dos pedidos. Outra funcionalidade estudada é a possibilidade de acionar o atendimento por meio de um assistente virtual.
A proposta permitiria iniciar uma solicitação utilizando um comando de voz, como “Ok, Samu”. O recurso é pensado principalmente para situações em que a pessoa esteja impossibilitada de manusear o celular.
“Mas tem no bot podendo já acionar o aplicativo automaticamente, fazendo inclusive acionamento da plataforma do atendimento por meio de um dispositivo chamado assistente virtual. E pelo comando “Ok, Samu”, você já consegue iniciar o atendimento do aplicativo. Fazendo assim a inclusão social, tendo aí a acessibilidade, inserindo as pessoas com certos tipos de deficiência ou dentro de um determinado tipo de situação, não podendo usar o celular, ele podendo acionar ali por meio de voz”, disse.
Projeto ainda está em desenvolvimento
Apesar dos avanços, a tecnologia ainda está em fase de aprimoramento e não foi implementada no atendimento do Samu. De acordo com Enarde, testes mais amplos ainda não foram realizados devido aos custos de infraestrutura necessários.
O desenvolvedor afirma que já participou de reuniões com profissionais e representantes do Samu para apresentar a proposta e entender as necessidades enfrentadas pelas equipes no atendimento diário.
Atualmente, também está sendo realizada uma pesquisa para avaliar a percepção da população sobre a utilização de recursos tecnológicos no atendimento de emergência.
“O custo é alto com relação à infraestrutura. Hoje a gente fizemos algumas reuniões ali com a diretoria do SAMU, com as diretorias, com a equipe, para mostrar que a tecnologia não vai apenas beneficiar a população em geral, mas também os próprios profissionais do SAMU, fazendo inclusive uma integração de ferramentas. Então, a gente está nesse processo de entender as necessidades por parte dos profissionais do SAMU e também mostrar a importância aqui com relação à população”, completou.
A expectativa é aprimorar a ferramenta a partir dessas informações e buscar meios para que a tecnologia possa, futuramente, ser implementada no Acre.
Fonte: Contilnet







