BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Dois dias após anunciar códigos de vestimenta rigorosos nas escolas do Peru, a presidente Keiko Fujimori ignorou as críticas à nova política para os estudantes e foi além, afirmando que o material didático passará por cortes para não ter “nenhum tipo de ideologia”.
“Assim como anunciamos que os alunos terão que vir impecáveis, não somente haverá corte de cabelo, mas também corte da ideologia que estava nesses textos escolares”, afirmou a populista de direita na última quarta-feira (14), durante um evento em Lima.
E continuou: “O currículo precisa se modernizar. Não deve conter ideologia, mas, sim, dados, estatísticas e informações reais”. “Essa revisão também já está em curso, como anunciou o ministro da Educação, e os próximos textos escolares sairão sem nenhum tipo de ideologia”, disse Keiko.
Na segunda-feira (12), a presidente anunciou novas regras de vestimenta para os alunos de escolas públicas, agora proibidos de usar maquiagem, esmalte, cabelos “excessivamente” longos ou tingidos, celular e saias consideradas curtas.
Assim como o anúncio da segunda, o de quarta ainda tem poucos detalhes.
A vice-ministra de Educação, Miriam Ponce, afirmou que os textos vão se concentrar “na importância do desenvolvimento integral das pessoas” e que “aqueles que apresentam certos aspectos ideológicos estão sendo revisados”. O objetivo, disse, é “fomentar a análise crítica dos estudantes a partir de conteúdos objetivos, especialmente no ensino de história”.
O ministro da Educação, José Antonio Chang, reafirmou que não haverá uma “interpretação ideológica da história”, também sem dar detalhes do que isso significaria. “Vamos recorrer ao rigor da história científica para que nossas crianças tenham acesso a ela e para que seu pensamento crítico lhes permita formar sua própria opinião”, disse.
Ao final do evento, ao tentar exemplificar para a imprensa a mudança, o chefe da pasta questionou o uso do termo “guerra civil” para se referir ao período de conflito entre Estado e guerrilhas na década de 1990. A educação, diz ele, não pode ter “conotações ideológicas e interpretações da história que são de interesse próprio”.
O exemplo dado por Chang é especialmente importante para Keiko, filha de Alberto Fujimori (1990-2000), justamente o ditador que empreendeu a repressão a grupos armados nos anos 1990. Dois massacres na época, além de outros crimes, renderam-lhe uma pena de 25 anos de prisão, dos quais ele cumpriu 16 antes de ser libertado por um indulto humanitário, em 2023.
Keiko dedicou grande parte de sua carreira política eleitoral, que remonta à vitória como deputada em 2006, entre reconhecer erros do pai, em uma tentativa de acenar ao sentimento antifujimorista no Peru, e exaltar seu legado como um político linha-dura.
Em 2016, por exemplo, quando tentava ser eleita presidente pela segunda vez consecutiva (ela ainda precisaria disputar o Executivo mais duas vezes para conseguir a vitória), reconheceu que houve violações aos direitos humanos durante o regime de seu pai e disse ter passado por um “processo de reconciliação” com setores distantes do fujimorismo.
A estratégia de enaltecer o pai, porém, acabou sendo exitosa este ano, no momento em que o país enfrenta uma explosão de crimes de extorsão e alta na cifra de homicídios. Após a soltura de Fujimori, Keiko chegou a afirmar que ele concorreria às eleições deste ano, mas o ditador morreu em setembro de 2024.
Na ausência do pai, ela iniciou o dia do primeiro turno, em abril, em sua sepultura. “Esta é a primeira vez que vamos a uma eleição sem meu pai e minha mãe”, afirmou ela na ocasião. Em abril, em café da manhã com a presença da imprensa, uma tradição no Peru, voltou a falar do ditador. “Eu gostaria que quem estivesse falando aqui hoje fosse meu pai.”
Como era esperado, o anúncio sobre os materiais escolares despertou críticas. Sheridan Medina Cabrera, diretora da organização Enciende Educación, afirmou em suas redes sociais que, sem critérios rigorosos, o plano pode ser usado como uma “ferramenta de controle de narrativa”.
“A denominação do conflito armado interno e as referências às responsabilidades por violações de direitos humanos não são detalhes menores. Quando se fala em substituir essa denominação por ‘terrorismo’, é necessário se perguntar que relato histórico se deseja construir”, disse ela.
Anteriormente, a divulgação dos planos de proibir alguns tipos de cortes de cabelo e roupas nas escolas também havia sido alvo de contestações. “O que estamos vendo também é que esse debate mostra claramente quem está a favor da disciplina, em oposição à desordem”, afirmou Keiko na quarta.
Com informações do Notícias ao Minuto







