Dólar cai e Bolsa recua pressionada por balanços do varejo

Dólar cai e Bolsa recua pressionada por balanços do varejo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em queda de 0,41% nesta sexta-feira (7), cotado a R$ 5,084, em um pregão marcado pela reação dos investidores a dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos mais fracos do que o esperado.

No exterior, o índice DXY, que mede a força do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, caiu 0,38%, aos 99,56 pontos.

A Bolsa também encerrou o dia em baixa, com queda de 1,72%, aos 172.513 pontos, pressionada principalmente pela temporada de balanços corporativos. O recuo se soma ao da véspera, quando o Ibovespa caiu 1,22%, aos 175.546 pontos.

Segundo Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, os balanços da Renner e do Magazine Luiza vieram abaixo das expectativas do mercado, apesar de o cenário macroeconômico desafiador já estar refletido nos preços das ações. “As empresas também reduziram as projeções para o ano, o que não agradou o mercado.

No caso da Petrobras, que teve recuo de 2,99%, Magno avalia que, apesar dos bons resultados e do anúncio de dividendos robustos, as ações da estatal acumulavam alta de quase 15% em julho. “Acredito que o movimento de hoje retrate um pouco os investidores realizando parte deste lucro do mês passado.”

As ações da Lojas Renner desabaram 8,08% após a companhia revisar para baixo sua projeção de vendas para 2026. A empresa reduziu a expectativa de crescimento da receita líquida de uma faixa entre 9% e 13% para um intervalo de 4% a 8%.

Segundo a companhia, pesaram na revisão a redução do fluxo de clientes nas lojas físicas durante a Copa do Mundo, em intensidade superior à observada historicamente, além dos efeitos de um cenário macroeconômico mais desafiador.

As ações do Magazine Luiza também caíram, com recuo de 3,71%. A varejista registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado no mesmo período do ano passado.

Ainda segmento de moda, a C&A acompanhou o movimento dos pares e recuou 2,75%. A companhia havia divulgado seu balanço na terça-feira (4).

Os resultados reforçam os desafios enfrentados pelo varejo em um ambiente de desaceleração da atividade econômica. O setor vem sendo pressionado pelo elevado endividamento das famílias e pelo crédito mais caro.

Além disso, a trajetória dos juros continua no radar dos investidores. No início do ano, o mercado projetava que a taxa Selic encerraria 2026 próxima de 12%.

Com a persistência das pressões inflacionárias, porém, as expectativas foram sendo revisadas e, atualmente, o consenso é de um ciclo de cortes restrito.

Na quarta-feira (5), o Copom reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, promovendo o quarto corte consecutivo da Selic.

No comunicado divulgado após a decisão, o colegiado evitou antecipar os próximos passos da política monetária e voltou a afirmar que o tamanho total do ciclo de cortes será definido “à luz de novas informações”, diante dos riscos para a trajetória da inflação.

Uma Selic ainda em patamar elevado, combinada com juros estáveis nos Estados Unidos, mantém atrativa a estratégia conhecida como carry trade, em que investidores captam recursos em economias de juros baixos para aplicar em países com taxas mais elevadas, como o Brasil, aproveitando o diferencial de juros.

No varejo alimentar, as ações do Assaí também figuraram entre as maiores quedas do Ibovespa. Apesar de a companhia ter anunciado lucro líquido de R$ 484 milhões no segundo trimestre, alta de 121% na comparação anual, a empresa afirmou que a inflação dos alimentos voltou a pressionar o desempenho do período e que o elevado endividamento das famílias continuou afetando o consumo, levando consumidores de menor renda a ajustarem sua cesta para preservar o orçamento.

Na ponta oposta, as ações do Fleury dispararam 9,72%, impulsionadas pelo lucro líquido de R$ 221,9 milhões no segundo trimestre, alta de 45,7% em relação ao mesmo período de 2025.

Segundo analistas do BTG Pactual, a companhia apresentou um conjunto sólido de resultados, com forte crescimento orgânico, robusta geração de fluxo de caixa livre (FCF), margens saudáveis e expansão expressiva do lucro líquido.

No mercado americano, as atenções desta sexta-feira se voltaram para o relatório de emprego (payroll), principal indicador de emprego acompanhado pelo Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), reforça a percepção de que a economia norte-americana não está tão aquecida quanto se imaginava e reduz as expectativas de novas altas de juros no país, favorecendo mercados e moedas emergentes, como o real.

Dados divulgados pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA revelaram o fechamento de 23 mil postos de trabalho em julho, após a criação de vagas em junho ser revisada para baixo, de 57 mil para 20 mil.

Economistas consultados pela Reuters previam a abertura de 80 mil postos de trabalho. O resultado também ficou abaixo do piso das estimativas, que apontavam, no mínimo, para a criação de 10 mil vagas.

Segundo Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, os indicadores reforçaram a percepção de um mercado de trabalho americano menos aquecido do que se imaginava.

“Como consequência, diminuem as apostas de que o Fed eleve os juros no curto prazo. A avaliação é de que um mercado de trabalho mais fraco reduz a necessidade de um aperto adicional da política monetária para combater a inflação.”

A redução das expectativas de novas altas de juros pelo Fed derruba os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano e diminui a atratividade dos ativos dos EUA para o capital internacional. “Esse movimento enfraquece o dólar e favorece a valorização de outras moedas, entre elas o real”, afirma Leonel.

As bolsas americanas fecharam em alta. O Dow Jones subiu 0,28%, o S&P 500 avançou 0,62% e o Nasdaq ganhou 1,30%.

No mercado de juros, os contratos futuros encerraram o dia em queda. O DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 fechou em 13,78%, com recuo de 0,07 ponto percentual. Já o contrato para janeiro de 2035 terminou o pregão em 14,425%, com recuo de 0,03 ponto percentual.

Nos Estados Unidos, o rendimento da Treasury de dez anos recuou 0,56%, para 4,64%.

Para a próxima semana, Gabriel Magno afirma que as atenções dos investidores continuarão voltadas para a temporada de balanços, tanto no Brasil quanto no exterior. A divulgação do IPCA também deve ficar no radar do mercado, já que o Banco Central não deu sinais claros sobre os próximos passos da política monetária.

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