O médico Alex Calado, especialista em dores crônicas, explicou ao ac24horas, na noite deste sábado (8), durante a Expoacre 2026, em Rio Branco, como a dor persistente pode se transformar em uma doença e quais são os tratamentos disponíveis atualmente para pacientes que convivem com o problema.
Durante a entrevista, o médico destacou que a dor crônica é definida pela permanência dos sintomas por mais de três meses e ressaltou que ela deve ser tratada como uma doença, mesmo quando está associada a outra lesão. “A dor crônica, por conceito, é toda dor que dura mais de três meses. Nós consideramos a dor como uma dor crônica e como uma doença. As pessoas não veem a dor crônica como uma doença, e ela é uma doença. Mesmo que você tenha uma outra lesão associada a essa dor, a dor crônica, quando ela se instala, por si só, ela já é uma doença”, explicou.
Alex Calado citou como exemplo a artrose no joelho. Segundo ele, quando uma pessoa convive durante anos com uma dor sem tratamento adequado, o cérebro pode desenvolver uma espécie de “via da dor”, fazendo com que o problema permaneça mesmo após a correção da lesão original. “Pode acontecer o fato de eu operar esse joelho e a pessoa continuar com dor. E isso é dor crônica, porque ela ficou ali três meses com aquela lesão, passou um ano, dois anos, e estabeleceu uma coisa que a gente chama de via da dor”, afirmou.
Segundo o especialista, esse processo está relacionado à neuroplasticidade cerebral. “O cérebro se acostuma com essa dor, ele faz o fenômeno que a gente chama de neuroplasticidade cerebral, e é essa via que não existia antes, ela acontece, e aí fica muito mais difícil de tratar”, explicou.
Durante a entrevista, o médico também falou sobre a fibromialgia, uma das condições mais conhecidas relacionadas à dor crônica. Ele destacou que os pacientes ainda enfrentam preconceito porque muitas pessoas associam a doença exclusivamente a fatores emocionais.
“A fibromialgia inclusive sofre preconceito da sociedade. Onde a gente tem ali uma pessoa que tem uma dor que é real, a nível cerebral a pessoa sente dor”, afirmou.
Alex explicou ainda que a mesma região do cérebro envolvida na percepção da dor também está relacionada às emoções, o que pode fazer com que situações de estresse agravem os sintomas. “Então você tem muitas vezes pessoas com um quadro emocional ruim, um estresse familiar, e essa dor piora. E aí vem o preconceito da sociedade dizendo que é uma dor psicológica, é uma dor emocional, como se a dor não existisse”, disse.
O médico acrescentou que a fibromialgia pode comprometer a rotina profissional dos pacientes e que atualmente a condição pode ser enquadrada como deficiência, desde que sejam cumpridos os critérios e avaliações necessários. Outro ponto abordado na entrevista foi a dor de cabeça. Alex Calado explicou que existem mais de 100 tipos diferentes de cefaleia e que a enxaqueca é apenas uma dessas categorias. “A enxaqueca é um dos tipos de dor de cabeça. Mas a enxaqueca também tem várias causas”, explicou.
Segundo o médico, uma das possibilidades é a chamada cefaleia cervicogênica, relacionada a problemas na região cervical. “A gente pode ter uma enxaqueca que tem uma origem de uma dor cervical. A gente chama cefaléia cervicogênica, que desencadeia uma enxaqueca”, afirmou.
Ele também citou a possibilidade de dores de cabeça relacionadas à alimentação e a ocorrência de quadros mistos, que combinam diferentes tipos de cefaleia.
Alex Calado contou ainda que é comum receber pacientes que chegam ao consultório com diagnósticos anteriores que precisam ser reavaliados. “O paciente vem com um diagnóstico. A gente às vezes não sabe de onde ele veio com aquele diagnóstico. Ele vem tratando aquilo há muito tempo com aquele diagnóstico. A gente faz uma avaliação que eu chamo de 360 graus”, relatou.
Segundo ele, a avaliação pode incluir exames e termografia para identificar padrões relacionados à dor e direcionar o tratamento para a causa correta.
Termografia e novas tecnologias
O especialista destacou que os avanços tecnológicos ampliaram a capacidade de diagnóstico e tratamento das dores crônicas. Entre os recursos utilizados está a termografia, que permite identificar diferenças de temperatura em determinadas regiões do corpo. “A gente tem a termografia, por exemplo. A gente consegue ver o que eu chamo de mapa da dor. E aí você vê exatamente o músculo que está sobrecarregado”, explicou.
Alex também citou o uso de laser de alta intensidade no tratamento. Segundo ele, o equipamento utilizado em seu consultório consegue atingir até 15 centímetros de profundidade. “Um paciente que tem uma hérnia de disco, está inflamada, não tem mais indicação cirúrgica. A gente consegue colocar o laser lá e ele vai chegar na hérnia”, afirmou.
De acordo com o médico, o equipamento é significativamente mais potente que os lasers utilizados tradicionalmente em sessões de fisioterapia.
Outro recurso citado foi o sistema superindutivo, que utiliza um campo eletromagnético para provocar contrações musculares sem a necessidade de contato direto do equipamento com o paciente. “Você consegue contrair as musculaturas que a gente não consegue ativar. As musculaturas mais intrínsecas da coluna, por exemplo”, explicou.
O médico também relatou o uso de radiofrequência e bloqueios para determinados tipos de cefaleia e dores relacionadas à coluna cervical. “Todos os tratamentos que são consagrados já, que já existem, às vezes, que os pacientes iam para São Paulo para fazer. Eu trouxe para o Acre”, afirmou.
Durante a entrevista, a esposa do médico, que também é sua paciente, relatou que ficou mais de seis meses sem apresentar crises de dor de cabeça após o tratamento. “Tem mais de seis meses que eu não tenho crise de dor de cabeça”, contou.
Ela relatou que anteriormente sofria com dores diárias, fazia uso frequente de medicamentos e chegou a realizar três horas de fisioterapia por dia. “Eu quase não trabalhava mais. Então isso teve um impacto na minha vida”, afirmou.
Para ela, o trabalho especializado em dor pode representar uma alternativa para pacientes que acreditam já ter tentado todos os tratamentos disponíveis. “Eu acho que a especialidade dele veio para aquelas pessoas que dizem assim: ‘Poxa, eu já tentei de tudo, não existe mais solução’”, declarou.
Alex Calado explicou que um dos objetivos da medicina da dor é evitar que o paciente entre em um ciclo de imobilidade, piora do sono e agravamento dos sintomas. “A nossa missão é tirar o paciente de um ciclo vicioso da dor e colocar ele num ciclo virtuoso”, afirmou.
Segundo o médico, existe uma cultura de que pessoas com determinadas doenças, como artrose, precisam evitar atividades físicas. Ele afirmou que essa ideia não deve ser aplicada de maneira generalizada. “Se o paciente tem, por exemplo, uma artrose no quadril. ‘Ah, você não pode caminhar, você não pode correr’. Mas isso é um mito. Na verdade não tem nada a ver, não tem nenhum estudo que diga isso”, explicou.
Para ele, o tratamento deve criar condições para que o paciente consiga retomar a movimentação e entrar em um processo de reabilitação. “A gente faz as infiltrações, a gente faz os bloqueios, a gente deixa o paciente sem dor para que ele possa entrar num momento de reabilitação”, disse.
O especialista explicou que o ciclo vicioso ocorre quando a pessoa sente dor, deixa de se movimentar, dorme pior e, consequentemente, passa a sentir ainda mais dor. “O paciente com dor, imóvel, fica com mais dor, piora o sono, piora a dor, piora tudo e não sai dali. Ele vai entrando num buraco. E aí ele vai entrando também na depressão. E vai, sabe, a dor vira o centro da vida dele e ele não consegue fazer mais nada”, afirmou.
Já o ciclo virtuoso começa quando o paciente consegue controlar a dor e retomar gradualmente suas atividades. “Eu tiro a dor dele. E aí ele consegue se mexer, melhora o sono, melhora a disposição, melhora a dor e aí vai no ciclo virtuoso”, explicou.
Questionado sobre o uso de canabidiol no tratamento das dores, Alex afirmou que a substância pode ser utilizada dentro de protocolos médicos, mas defendeu que o paciente não faça uso por conta própria. “Falando especificamente do canabidiol, a gente considera na dor uma terceira linha. Mas eu acho que seria muito útil dentro dos protocolos, das medicações que a gente usa”, afirmou.
O médico recomendou que o uso seja acompanhado por um profissional. “Eu recomendo que o paciente faça sob prescrição médica”, disse.
Segundo ele, produtos adquiridos sem controle adequado podem apresentar riscos relacionados à procedência e à composição. “A gente não sabe realmente qual é o controle da vigilância sanitária, procedência. De repente, eles podem colocar um corticoide lá dentro. E aí o paciente tem uma falsa percepção de que tem uma melhora com canabidiol”, alertou.
Ele também destacou a necessidade de acompanhamento de exames durante o tratamento. “Outra coisa também é acompanhar as taxas, função hepática, que ele tem essa alteração que pode acontecer. Então, estar ali com o profissional é muito mais seguro”, afirmou.
Alex Calado informou que atualmente atende no Hospital São Pedro, em Rio Branco, onde também atua como anestesista. Segundo ele, o espaço conta ainda com serviço de fisioterapia e equipamentos voltados ao tratamento da dor. “Eu sou anestesista há 15 anos, sou anestesista de transplante de fígado e trabalho com dor já há algum tempo. Então, lá a gente consulta, lá também tem um serviço de fisioterapia nosso e os equipamentos estão lá”, explicou.
Lucas Vitor







