MAELI PRADO, MARIANA CUNHA, NATÁLIA SANTOS E NICHOLAS PRETTO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ceará, Espírito Santo e Santa Catarina são os entes da federação com as exportações totais mais afetadas pelas tarifas de Donald Trump, mostra levantamento feito pela Folha a partir de dados de 2025 do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Quando se considera o impacto sobre as economias estaduais como um todo, esses estados também tendem a ser mais atingidos, já que ou possuem maior dependência do comércio exterior (como o ES e SC) ou uma cadeia produtiva complexa, com maior chance de transmitir os efeitos das sobretaxas a outros setores (caso do CE).
No dia 23 de julho, os Estados Unidos impuseram nova cobrança de 12,5% a produtos do Brasil, sob a justificativa de que o país importa produtos de países com trabalho forçado. Em muitos casos, o percentual adicional se soma aos 25% da investigação da seção 301, de práticas comerciais consideradas injustas.
Um dos cenários mais preocupantes é o do Ceará, que envia 46% das suas vendas externas aos EUA e possui 91,3% do seu comércio com os americanos afetado por sobretaxas. Cerca de 42% de todas as exportações do estado agora estão sujeitas a tarifas.
“O Ceará foi muito afetado desde o início das tarifas porque grande parte da sua pauta de exportação é da indústria siderúrgica, tarifada pela seção 232. Além disso, a pauta exportadora é muito concentrada nos EUA”, diz João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre.
Além de semimanufaturados de aço, os principais itens exportados pelo estado sobre os quais incidem sobretaxas são mel, granito e calçados de borracha, entre outros. Os americanos são os principais compradores dos cearenses, seguidos pelos mexicanos, com 7,1% das exportações.
Apesar disso, o grau de abertura da economia cearense (ou seja, as exportações mais importações em relação ao PIB do estado) é apenas 9,8%, segundo dados de um estudo de 2024 dos pesquisadores Carlos Nathaniel Rocha Cavalcante e Rodrigo De-Losso publicado pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).
Ou seja, a economia como um todo é menos dependente do comércio exterior. Mesmo assim, Cavalcante faz a ressalva de que os produtos de siderurgia, muito exportados pelo estado, têm uma cadeia produtiva complexa.
“Como a siderurgia mobiliza energia, logística, insumos, serviços especializados e emprego ao longo da cadeia, um choque sobre as exportações de aço dificilmente fica restrito ao valor vendido ao exterior. Ele pode se propagar para fornecedores, trabalhadores e atividades ligadas à operação industrial e portuária”, observa ele, que é pesquisador da Fipe e mestre em economia pela USP (Universidade de São Paulo).
Outro caso de atenção é o Espírito Santo: dados do estudo da Fipe mostram que o estado é aquele com o maior grau de abertura entre as unidades da federação, com suas exportações e importações representando 62,7% do PIB.
No estado capixaba, as tarifas impactam 68,6% das exportações aos EUA, e o país representa 27% de todas as vendas externas. Nesse caso, 18,5% das exportações totais estão sujeitas a tarifas.
“A abertura comercial do Espírito Santo é praticamente o dobro da média brasileira, e há produtos com muito peso na pauta exportadora. As tarifas afetam em cheio a nossa economia”, diz Antônio Ricardo Freislebem da Rocha, diretor geral do Instituto Jones dos Santos Neves, órgão do governo do ES que realiza estudos econômicos.
Os principais itens sobretaxados no caso do ES são os semimanufaturados de ferro ou aço, seguidos por pedras de cantaria e pastas químicas de madeira.
“Mas o impacto das tarifas não é sinônimo de fechamento do mercado”, diz Rocha. “Pode haver diversificação para outros países ou os americanos podem se manter como compradores, já que para certos produtos somos os únicos fornecedores.”
É a mesma avaliação de Cavalcante, que lembra que os efeitos das sobretaxas também variam dependendo da característica dos produtos comercializados.
“Produtos cuja demanda muda pouco quando o preço varia, que têm pouca concorrência externa ou poucos substitutos disponíveis tendem a sofrer menos, porque o comprador americano pode continuar demandando o bem mesmo com a tarifa”, observa.
Santa Catarina, que exporta 12,1% dos seus produtos para os EUA e que possui 80,7% das exportações tarifadas, aparece em terceiro lugar no ranking dos entes da federação mais prejudicados, com 9,7% das vendas totais impactadas.
A lista de exportações sobretaxadas do estado inclui madeira e itens para veículos automotores, como acessórios de carroçarias e freios. O grau de abertura da economia catarinense também é expressivo, de 45,3%.
Já Alagoas tem 98,4% do seu comércio afetado por sobretaxas. O item mais exportado aos Estados Unidos é o açúcar de cana, taxado na lista dos 25%, mas isento na de 12,5%. No último ano, foram US$ 65,6 milhões vendidos só com produtos dessa categoria.
São Paulo é o estado com maior volume de exportações aos americanos e possui 41,5% das vendas à maior economia do mundo afetadas por tarifas. No caso paulista, beneficiado pela isenção de produtos da indústria aeronáutica e do suco de laranja, 7,7% das vendas do estado estão sobretaxadas, e sua dependência do comércio exterior é de 21,7%.
Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso estão entre os estados menos impactados, com pesos de 1,4%, 1,2% e 0,2% dos produtos tarifados nas vendas totais, respectivamente. Apesar de terem graus de abertura elevados, esses estados são beneficiados porque as exportações de carne, principal item com destino aos EUA, estão isentas.
“Fala-se muito nas perdas do Brasil, mas olhando de forma regional, vê-se diferenças expressivas. Há regiões que sofreram menos, como o Centro-Oeste, e outras mais afetadas, como o Nordeste”, diz França.
Para o economista do FGV Ibre, o impacto desigual mostra a necessidade de os estados mais afetados redobrarem esforços para diversificar a pauta exportadora e os destinos comerciais.
A análise da Folha classificou como “taxados” os itens que apresentassem tributação em pelo menos uma das duas alíquotas analisadas (25% ou 12,5%). Somente os itens isentos em ambas as alíquotas foram classificados como tais.
Foi considerada a classificação do Sistema Harmonizado de seis dígitos, um código de mercadorias universal para classificar produtos que circulam no comércio internacional, criado pela Organização Mundial das Alfândegas. Esse código abarca segmentos econômicos bem específicos, mas não cada item.
Assim, o levantamento é uma estimativa, uma vez que dentro de uma mesma categoria pode haver produtos isentos e taxados. Segundo o Mdic, não há uma tabela de conversão que compatibilize as especificações de comércio norte-americano (HTSUS) e brasileiro (NCM).







