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Guerra no Irã expõe limites das Forças Armadas dos EUA

Guerra no Irã expõe limites das Forças Armadas dos EUA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)- A guerra no Irã, que completou seis meses na sexta-feira (28), expôs limites da maior máquina militar da história, a operada pelos Estados Unidos.

A dinâmica do conflito desafiou o planejamento militar americano: Washington não só despejou explosivos em mais de 13 mil ataques à teocracia, mas teve de se defender em bases no Oriente Médio e apoiar aliados regionais contra a retaliação iraniana.

O plano presumido de Donald Trump, com a ajuda de Israel, era encerrar rapidamente a guerra com a destruição do comando político e militar do Irã. O país persa foi duramente golpeado, mas uma estrutura horizontal de decisões permitiu que ataques retaliatórios fossem disparados já no primeiro dia da guerra.

E assim continuaram, com Teerã também travando o trânsito no estreito de Hormuz. Trump decidiu abandonar a política de ataques pontuais que vinha adotando desde julho em favor de renovada pressão econômica, segundo relatos, pela ineficácia e pelo alto custo.

O presidente negou haver problemas e ameaçou prender quem os divulgasse. Mas as dificuldades se acumularam. Na questão da munição, segundo a TV CBS e a agência Reuters, mísseis de longo alcance terra-terra como os do lançador ATACMS já foram exauridos. São munições caras, na casa de R$ 5 milhões cada uma.

Os números, claro, são secretos. Estimativas de institutos como o americano Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) apontam que talvez um quarto dos estimados 4.500 mísseis de cruzeiro Tomahawk foi gasto. Ele custa quase R$ 7 milhões a unidade.

Segundo o Exército, até julho foram derrubados 1.200 mísseis e drones iranianos no conflito, a maioria com baterias Patriot.

O Departamento de Defesa estima que o conflito já custou R$ 194 bilhões, e o secretário Pete Hegseth encaminhou um pedido de suplementação de R$ 346 bilhões para repor arsenais. É uma sangria mesmo para um país que prevê gastar com defesa nos próximos 12 meses R$ 7,7 trilhões, valor recorde.

Mesmo negando falta de munição, Trump invocou um mecanismo da Guerra Fria, a Lei de Produção de Defesa, em junho. Em julho, pediu a aceleração da fabricação de armas, e há duas semanas a gigante Raytheon ganhou R$ 118 bilhões para produzir Tomahawk mais rapidamente por sete anos.

Aliados sentiram o baque. A Ucrânia, que só recebia armamento americano por meio de europeus depois que Trump voltou ao poder em 2025, viu cair em dois terços a entrega de mísseis de interceptação e sofre com ataques renovados da Rússia.

Os EUA informaram ao Japão, por sua vez, que a entrega de 400 Tomahawk para reforçar sua posição contra a China, rival estratégica dos EUA, deverá ser atrasada.

É no Pacífico que o aperto militar americano fica evidente. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a região está sem um grupo de porta-aviões americano durante um conflito -antes, isso ocorria eventualmente devido a questões de manutenção.

O problema está no Oriente Médio. O USS Gerald Ford, maior navio de guerra do mundo, já havia sido deslocado para atuar na ação que submeteu a Venezuela a Trump em janeiro.

De lá, migrou para reforçar o teatro da guerra. Mas uma série de problemas estruturais, que culminaram em banheiros inundados e um incêndio nas lavanderias, obrigou o navio a deixar a região. Ele estava no mar Vermelho e foi substituído.

Do outro lado da península Arábica, o grupo do USS Abraham Lincoln esticou sua presença no mar para quase nove meses, ante os usuais 90 dias, o que gerou uma crise pública, com famílias denunciando condições insalubres a bordo e até tentativas de suicídio.

Ao fim, mesmo negando a crise, o Pentágono o removeu. O substituto foi o USS George Washington, o último remanescente no Pacífico. A manutenção de navios por tanto tempo em missão é complexa, e pode levar até um ano.

Com isso, estão em ação 2 dos 11 porta-aviões de propulsão nuclear dos EUA, com 4 em manutenção, 2 em treinamento, 2 no porto, e o Lincoln a caminho de casa com parada na Tailândia.

Segundo especialistas, os danos sofridos à sede da Quinta Frota no Bahrein agravaram a situação da Marinha. Com os bombardeios iranianos, parte da cadeia de suprimentos para navios na região foi levada para a base de Diego Garcia, a quase 4.000 km de lá, no Índico.

Nada disso indica que os EUA estejam enfraquecidos a ponto de serem dobrados por quaisquer adversários. O bloqueio naval ao Irã, com quase 20 embarcações, segue em vigor, por exemplo. Sua capacidade de deslocamento de recursos, apesar da crise naval, segue inigualável.

Mas a natureza assimétrica do conflito, como a Ucrânia mostrou à Rússia, sugere que o investimento em armas tecnológicas do pós-Guerra Fria pode não suportar a duração de atritos por muito tempo.

Não por acaso, os EUA estão acelerando projetos para multiplicar sua força de drones e para criar mísseis mais baratos e abundantes.

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